Série do resgata fatos memoráveis do antigo píer de Ipanema

Em meio ao clima de repressão que a ditadura militar impunha ao Brasil na década de 1970, um grupo de jovens, intelectuais e artistas ocupou um trecho da Praia de Ipanema, onde ficava o antigo píer, e criou ali uma espécie de nação independente e livre de qualquer lei. O trecho foi batizado de Dunas do Barato e tornou-se um ponto de efervescência cultural que marcou toda uma geração. A partir de hoje, essa história será resgatada na série documental de mesmo nome apresentada no Canal Brasil em cinco episódios.

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Foto: reprodução internet

Com direção de Olivio Petit, o trabalho foi idealizado originalmente para ser um longa-metragem e levou quase uma década para ser concluído.

— A ideia era fazer um trabalho focado no universo do surfe no píer de Ipanema, algo semelhante ao que houve na Califórnia, quando os surfistas passaram a andar de skate em piscinas vazias e criaram um novo esporte. Acontece que aqui não houve uma mudança tão significativa assim. Então, eu sugeri que abordássemos todos os pontos que marcaram o píer, o que inclui segmentos como moda, teatro, música e artes plásticas — explica Petit.

A construção, projetada para erguer um emissário que levaria o esgoto da cidade ao mar, propiciou também o surgimento de ondas perfeitas para surfistas e dunas que impediam a visão de pedestres no asfalto. A soma desses fatores é responsável pela idealização de um ponto fértil para o nascimento da contracultura, lugar preferido de atletas, poetas, artistas e revolucionários. O píer foi construído em 1972 e desmontado em 1975.

A demora para a conclusão da série documental ocorreu por diversos fatores, incluindo o financeiro. Mas, de acordo com o diretor Olivio Petit, nesses dez anos, em nenhum momento o projeto ficou paralisado por completo.

— Fizemos entrevistas e conseguimos bastante material, como fotografias e vídeos. Uma coisa bacana é que digitalizamos muito desse material, que acabaria se perdendo. Fizemos um acordo om os donos. Eles nos cediam os itens e, em contrapartida, os devolvíamos junto com a digitalização. No decorrer do processo, descobrimos que seria mais viável fazer uma série do que um filme — conta o diretor, ressaltando que ainda sobrou conteúdo e que a ideia é que o projeto seja futuramente transformado em longa-metragem.

Na estreia, Petit apresenta as musas e os poetas nascidos no lugar. “A gente achava que podia fazer tudo o que queria ali. Na realidade, a gente tava cercado pela polícia. Era uma como uma válvula de escape. Ali podia tudo, mas se você saísse na calçada com droga ou um comportamento inadequado, dançava”, diz o compositor Jards Macalé em um dos trechos do episódio.

O segundo capítulo contextualiza o momento político do país na época para mostrar qual o intuito de se fazer uma obra como a do píer. Ao mesmo tempo, revela como o movimento do surfe acabou ocupando o espaço.

— O píer foi mais um dos grandes projetos do governo militar, que apostava em grandes obras para impressionar, como a Transamazônica (rodovia inaugurada em 1972, durante o governo do presidente Emílio Garrastazu Médici) — destaca o diretor.

No terceiro capítulo, o foco são a moda e as artes plásticas no píer, tendo como fio condutor da história o artista Carlos Vergara. Entre os entrevistados está também o estilista David Azulay, proprietário da Blue Man, morto em 2009. Ele foi um dos grandes divulgadores da moda fluminense, com destaque para o biquíni de lacinho.

A quarta semana aborda o movimento do cinema e do teatro na região, com enfoque para a peça “Hoje é dia de rock”, de João Vicente, que ficou em cartaz entre 1971 e 1973 no Teatro Ipanema. O programa traz depoimentos do ator José Wilker, morto em 2014.

O último episódio se concentra na música que fez parte das Dunas do Barato, com destaque para o grupo Novos Baianos. O programa será exibido às quintas-feiras, às 21h. Haverá reapresentações aos sábados, às 16h, e quartas, às 12h30m.

Fonte: O Globo

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